quinta-feira, 4 de maio de 2017

Pesquisa busca preservar a Serra do Itapeti...


Com 5,3 mil hectares, a Serra do Itapeti, uma das maiores áreas de Mata Atlântica do Estado de São Paulo, apresenta os sinais da ocupação desenfreada. O número de moradias irregulares aumenta a cada ano, assim como o descarte de lixo em meio aos pontos de proteção e o desmatamento, de modo a abrir espaço para novas moradias não autorizadas. 
Um estudo realizado pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, quer apontar soluções para preservar a área remanescente do Itapeti, auxiliar a população local com o turismo ecológico e iniciar um processo de reflorestamento em locais já devastados.
O processo de ocupação da Serra do Itapeti teve início no final dos anos 1970. A explosão deste fenômeno ocorreu já na década seguinte. Auxiliou neste processo o fato de a Serra ter acessos fáceis à Cidade e muitos pontos de captação de água. O loteamento clandestino, feito alheio a qualquer fiscalização do poder público, também teve peso grande na formação do quadro atual do que é aquela área ambiental hoje.

O projeto “Caminhos do Itapeti”, iniciativa da UMC financiada por um edital de R$ 30 mil da SOS Mata Atlântica – e com apoio do Instituto de Educação Ambiental Suinã e Fundação de Amparo ao Ensino e Pesquisa (Faep) – tem mapeado a área de amortecimento da Serra (o trecho que fica às margens da mata fechada), que sofre mais com a ação humana por causa da aproximação com a área urbana. O trecho analisado fica entre o Rodeio e a Rodovia Mogi-Dutra (SP-88), acima do Jardim Aracy.

A coordenadora do projeto, a professora Maria Santina Morini, explica que, desde julho passado, início da pesquisa, 105 propriedades foram visitadas pela equipe, para que possa ser traçado um perfil dos moradores locais e quais os principais problemas por eles enfrentados.

“A área mais densamente ocupada está nesta região (aponta para um mapa em que se observam pontos azuis – que representam propriedades visitadas na região do Rodeio). Os moradores têm uma grande preocupação em relação a lixo, queimadas e ao desmatamento. Lixo é o ponto principal. Ele é causado pelos próprios moradores. Eles não têm local específico para destinar e a Prefeitura não manda coletar. As queimadas são causadas por pessoas que preparam terreno para novas moradias ou grupos religiosos que vão à Serra para fazer trabalhos religiosos. O desmatamento é fruto, sobretudo, do desejo de ocupação desenfreada da Serra”, disse à reportagem na tarde da última terça-feira.

Estudo recente da Fundação SOS Mata Atlântica mostra que, entre 2012 e 2014, o Alto Tietê perdeu 80 hectares de área verde, boa parte deles estava no trecho do Itapeti em Mogi das Cruzes.

O perfil do ocupante da Serra já foi definido pelas visitas. A maior parte (algo perto de 60%) é de homens, tem apenas o primeiro grau como formação educacional e idades que variam, em média, de 46 a 60 anos. A renda ultrapassa pouco mais de um salário-mínimo.
Apesar de a ocupação ter trazido problemas sérios para a Serra, os maiores impactos foram sofridos nos últimos anos, o que aponta que os primeiros moradores foram “menos destrutivos” no ato de ocupar o Itapeti décadas atrás. Pelas visitas, os pesquisadores percebem que as gerações mais novas não têm o mesmo grau de preocupação em preservar o local que os primeiros moradores tinham.

O estudo não consegue apontar, neste primeiro momento, a dimensão do desmatamento e seu impacto coletivo na vida das comunidades que ali habitam. Há alguns redutos na Serra que são conhecidos pelo grande número de casas irregulares. Um deles fica na região da Estrada da Pedreira, na parte fronteiriça de Mogi com Suzano. Uma passagem pela estrada vicinal Itapeti de Furnas mostra os três pontos identificados pelos pesquisadores da UMC: o lixo acumulado em enormes quantidades perto de áreas verdes, a construção de casas de madeira (barracos) e blocos sem planejamento (apenas para ocupar espaço) e o corte de dezenas e dezenas de árvores para abertura de lotes. Esta ocupação é um pouco mais recente, teve início no começo dos anos 2000, e recebeu gente que não queria viver mais em pontos como a zona leste da Capital paulista.

O objetivo da pesquisa coordenada pela professora é mostrar quem mora na Serra, o que faz e quais as suas expectativas de vida. A partir disso, outros pontos podem começar a ser trabalhados como, por exemplo, a elaboração de um plano de recuperação da mata nativa. Um assunto, contudo, deve ser detalhado no relatório conclusivo a ser apresentado em julho/agosto pela equipe: o impacto industrial junto à Serra. O nosso pulmão verde regional tem diversas plantas fabris presentes em vários trechos. Mesmo com acompanhamento de órgãos ambientais como a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), estas unidades geram passivos ambientais que, na maioria das vezes, levam décadas e mais décadas para serem percebidos. A queda de árvores para a abertura de área para ampliação e a poluição de rios são as práticas mais evidentes da presença de indústrias em áreas de Mata Atlântica. No caso do Itapeti, entretanto, não se pode dizer que foram estes os pontos observados ainda. O jornal solicitou uma entrevista com porta-voz da SOS Mata Atlântica, mas não recebeu retorno até a manhã de ontem.

Moradores querem criar associação

Um dos objetivos do “Caminhos do Itapeti” é estimular a população regularizada do local a criar roteiros de turismo ecológico. Desta forma, as pessoas adotariam práticas sustentáveis de preservação e valorização da Serra do Itapeti, afirma a professora Maria Santina Morini, coordenadora do projeto.

O primeiro passo neste sentido já está sendo dado. Na próxima quinta-feira, moradores e pesquisadores se reúnem para tratar da possível criação de uma associação de moradores da Serra. “Há gente ali que produz caqui, bichos como cabra para produção de leite, entre outras coisas. Com a criação da associação, fica mais fácil discutir medidas em prol da Serra. O nosso trabalho vai apresentar um mapa de sustentabilidade e a partir disso pode-se discutir roteiros turísticos, trilhas ecológicas e preservação do Itapeti. O que a gente observa, no entanto, é que não há elementos tão preservados da cultura dos moradores da Serra como em outros lugares. Isso pode começar a mudar”, afirmou a pesquisadora que disse ter planos de transformar o resultado deste projeto em um livro.

Além da coordenadora, participam do projeto as alunas/mestrandas no curso de Políticas Públicas, Camila Silva e Jéssica Paloma Ferreira, e o professor Ricardo Sartorello. O “Caminhos do Itapeti” foi viabilizado graças a um edital aberto pela SOS Mata Atlântica e vencido por esta equipe no valor de R$ 30 mil. 

Série alerta para problemas no Meio Ambiente - Esta é a quarta e última reportagem da série ambiental que O Diário publica desde o começo de abril por causa do Dia Internacional da Terra, celebrado ontem. Na primeira reportagem, o tema tratado foi o Rio Tietê e o avanço da poluição cada vez mais em direção à sua nascente, em Salesópolis. Na ocasião, o jornal mostrou que os primeiros sinais já surgiam em Biritiba Mirim. Na sequência, vieram os pontos de contaminação confirmados em todo o Alto Tietê. São mais de 150 lugares diferentes na Região com algum tipo de contaminante no solo. Noventa e cinco deles foram afetados porque abrigavam postos de combustíveis. Na terceira reportagem, O Diário trouxe os descuidos com um dos principais cartões-postais de Mogi: o Pico do Urubu. Na visita feita ao local na última quinta-feira, a reportagem encontrou garrafas de vidro, latas de cerveja, embalagens plásticas, preservativos usados e muitas fezes espalhadas pela área. Nesta última, o jornal traz detalhes de um mapeamento feito na Serra do Itapeti que busca incentivar a preservação do local e alertar para as ocupações irregulares que persistem aos olhos do poder público em todas as esferas.

Fonte: odiariodemogi.com.br

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