quarta-feira, 31 de maio de 2017

Nosso agronegócio é sustentável?, por Rui Daher...



Alguém no Facebook: "a agricultura nunca será sustentável, pois na hora em que os alimentos se tornam mercadorias que usam os recursos naturais deixam de ser sustentáveis". Ops, pré-história ou extermínio?
Já mencionei a barafunda que hoje se faz com o termo sustentabilidade. Virou carne de vaca fraca, quase de joelhos. O tema, quando corretamente abordado, sem vieses políticos ou comerciais, é de extrema importância.
Folha de São Paulo pensa que tem dois colunistas de agronegócios, Ronaldo Caiado e Marcos Sawaya Jank. Tem apenas um. O primeiro é um político de péssima cepa que nunca tratou do tema desde a sua estreia.
Marcos, sim, é um especialista equilibrado. Muito mais jovem do que eu, lembro, há mais de 20 anos, tê-lo contratado para uma série de palestras à equipe de vendas de uma empresa de fertilizantes em que eu trabalhava.
Na sua coluna de 29/04/22017, “Erros grosseiros no Índice de Sustentabilidade de Alimentos”, ranking de 25 países divulgado pela unidade de inteligência da britânica The Economist, calculado em base a critérios que levam em conta desde perdas e desperdício de alimentos, até agricultura sustentável, passando por saúde e nutrição, o Brasil foi colocado nas últimas posições (20º).
É o que Marcos contesta: “Fomos puxados para baixo por indicadores conceitualmente equivocados ou de mensuração altamente questionável”.
Em alguns pontos terá razão, noutros não. Onde acho que erra? Quando segue linha frequente e conveniente aos líderes do agronegócio, confederações e federações da agropecuária, associações de classe dos fabricantes de agroquímicos e a bancada ruralista no Congresso, que usaram os mesmos argumentos para fazer passar o novo Código Florestal.
Sigamos:
MJ: “Fomos punidos pelo uso elevado de fertilizantes e agroquímicos. Ora, corrigir e adubar solos e combater pragas e doenças deveria dar nota alta, e não baixa, principalmente em zona tropical, onde se plantam duas safras por ano”;
Verdade, mas foi merecida a nota baixa devido aos usos excessivos, desnecessários, forçados nas doses pelos fabricantes concentrados em grandes complexos multinacionais, com poder de divulgação massiva e, muitas vezes, mentirosa. A pesquisa hoje reconhece a quantidade de nutrientes retida no solo, indisponíveis, e as várias opções orgânicas, naturais e minerais que podem reduzir as aplicações químicas e manter a produtividade das lavouras, reduzindo o custo por hectare. O mesmo vale para pragas e doenças. Agrotóxicos podem ser eliminados ou, pelo menos, reduzidos com o uso de controladores biológicos.
Num caso e noutro o bolso do agricultor agradeceria e a EIU (Economist Intelligence Unit) seria mais condescendente com o Brasil.
MJ: “(...) seriam sustentáveis os países que têm maior área relativa ocupada com produção orgânica. O contrassenso é evidente: como a produtividade da agricultura orgânica é notoriamente menor do que a da agricultura convencional, ela fatalmente acabará demandando maiores extensões de terra, leia-se desmatamento adicional, além do impacto do maior custo do alimento final”.
Sim, mas não. Primeiro: experimentos que comparam vantagens dos tratamentos convencionais em relação aos orgânicos não as mostram assim tão “notórias”. Segundo: a expansão de áreas de plantio, no Brasil, não deveria implicar desmatamento, dada a disponibilidade de espaços agricultáveis. São suficientes para décadas de exploração e, concomitante, proporcionaria tempo para desenvolvimento de inovações tecnológicas de menores custos e impacto ambiental.
Não foi a preocupação com a sustentabilidade que fez nossa agricultura economizar área através da produtividade, mas o bolso dos produtores. Novas fronteiras são distantes, mal servidas pela logística, e de condições edafoclimáticas duvidosas. Daí os altos riscos e investimento para expandir áreas. Considere-se ainda a especulação imobiliária primitiva. 
No mesmo tema:
MJ“(...) não aparece nenhuma referência ao percentual da área de cada país preservada com florestas, onde somos campeões mundiais”.
Ora, ora. Sabemos que os demais países já terminaram a obra que nunca deveria ter começado aqui. Se o que temos devemos aos portugueses, lembremos que, campeões mundiais de área preservada com florestas, mas também em desmatamento.
Acerta Marcos Jank, no entanto, nos seguintes pontos: a) o absurdo de considerarem a agricultura brasileira como protecionista e altamente subsidiada; b) o uso não diversificado de nossas terras; c) negar como benéficas as produções de rações animais e biocombustíveis; d) o fator nutrição e saúde ser avaliado pela população do país dividida pelo número total de restaurantes das cadeias McDonald's, KFC e Burger King.
Suas críticas mais se fortalecem quando aponta uma das principais empresas que vendem carboidratos no mundo, líder mundial em macarrão, como patrocinadora da avaliação, a Barilla. Trigo não é o nosso forte.
Deixo apenas uma lembrança singela. A mesma desconfiança vale para estudos e pesquisas que garantem sustentabilidade aos agroquímicos quando patrocinados por Syngenta, Monsanto, Bayer, Basf, Dow/Dupont, enfim, os membros da Associação Nacional de Defesa Vegetal, ANDEF. 
Fonte: jornalggn.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário